31.3.2008
Sociedade sem Saída
ânegelo Faria - Jornal Estado de Minas – Cad. Cultura
Os meninos de Maria Augusta Ramos são exatamente aqueles que os defensores da redução da maioridade penal querem trancafiar. A garota assaltou o turista; o adolescente vendia drogas; o meninote matou o pai. Juízo, documentário da cineasta brasiliense de 43 anos, não levanta bandeiras, não “espetaculariza” a crueldade, nem trata ninguém como coitadinho. Não induz às Lágrimas. Aqui, estética da violência é a vida real.
Com sua câmerca lúcida, como observou o crítico José Carlos Avellar, a diretora registra audiências na 2° Vara de Justiça do Rio de Janeiro e o dia-a-dia do temido centro de “reeducação” carioca Instituto Padre Severino, verdadeira prisão barra-pesada de menores. Tudo é encardido, descascado, sem luz – quando muito, lâmpadas artificiais “iluminam” salas, corredores ou celas.
Maria Augusta teve uma sacada genial: para interpretar os jovens réus, ela própria selecionou garotos de comunidades pobres do Rio. Não são atores e sabem o que é passar por camburões, juizados e institutos reeducacionais, ou conviver com o tráfico e com a violência familiar. Juízes, defensores públicos, promotores, advogados, mães e país aceitaram participar do filme.
Em vez de tarja preta no rosto de adolescentes, Maria Augusta nos oferece gente. Atores de verdade dariam o mundo por aquele olhar duro da “dublê” da garota que se nega a voltar para casa e só a muito custo é demovida de permanecer no Centro de Recurso Integrado de Atendimento ao Menor (Criam). Não há indiferença nos olhos do menino que matou o pai a facadas, cansado de apanhar e de vê-lo espancar a mãe. Apático e fora do ar, o adolescente simplesmente está em outro mundo. Juízo expõe, sobretudo, isso. Justiça, centros “reeducativos”, autoridades e garotos infratores freqüentam universos paralelos.
Não há diálogo. Luciana Fiala é uma juíza quase à beira do ataque de nervos – com seus sermões, tenta sensibilizar os garotos para o destino cruel que os aguarda. Muitas vezes, eles sequer entendem o vocabulário da doutora. A Jovem magistrada é o retrato da impotência: teatral e carismática, “paga pau” o tempo todo, faz o papel de terapeuta familiar, mas sabe que são remotas as chances daqueles meninos e meninas. Está sempre dividida entre enviá-los para instituições “reeducacionias”, famílias destroçadas e a rua, onde muitos não sobreviverão à lei do tráfico.
Este filme seco, sem firulas, sem denuncismos oportunistas, expõe o fracasso do Executivo, Judiciário, Legislativo, Ministério Público e da sociedade brasileira, incapazes de transformar aqueles garotos em cidadãos. Há algo de muito podre no reino de indicadores econômicos ufanistas de nosso país-que-agora-vai-para-frente, versão século 21. Os meninos de Maria Augusta são a prova cabal de que o Brasil faliu. E, o que é pior, perdeu completamente o juízo.
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