9.3.2008
Os menores infratores pelas lentes de uma fã de Bresson 
Carlos Helí de Almeida - JORNAL DO BRASIL - JB CADERNO B / B3

A documentarista brasiliense Maria Augusta Ramos é devota de São Robert Bresson (1901-1999). Foi com o cieneasta-artista que ela aprendeu que “o verdadeiro não se imita e o falso não se transforma”. A premissa, com todas as suas implicações, está exposta em Juízo, que estréia na sexta-feira, no qual ela combina recursos da ficção e do documentário para fazer um filme sobre os menores infratores brasileiros. Como a identidade dos réus com menos de 18 anos é protegida por lei, a diretora optou por substituí-los por atores amadores nas seqüências que registram audiências nas Varas da Infância e da Juventude. O genial é que, se não fosse alertado sobre a estratégia ainda nos créditos iniciais, o espectador não perceberia o truque.
Em vez de usar atores profissionais ou treinados por entidades assistenciais, busquei jovens de comunidades carentes, que vivem naquela mesma realidade dos personagens do documentário. A substituição também tem um caráter simbólico: muitos outros como eles, os menores reais, poderiam estar sentados ali na cadeira do réu, como os menores que os estão representando – explica Maria Augusta, 43 anos, autora do elogiado Justiça (2004), um passeio pelos corredores do Fórum do Rio.
Em Justiça, a diretora buscou explorar, no âmbito do Tribunal de Justiça, a tensão urbana entre a classe média e as comunidades carentes do Rio. A idéia inicial era construir uma trilogia sobre as relações de poder dentro da sociedade, usando as audiências judiciais como microcosmo dessa realidade. Juízo dá seqüência à iniciativa, trazendo a questão para o ponto de vista dos jovens menos privilegiados que entram no caminho do crime. O estilo de abordagem permanece intacto: a observação pura e simples dos fatos.
- A questão dos menores infratores sempre esteve em minha mente, desde a realização de justiça. Um dos personagens do filme tinha 18 anos, mas parecia ter uns 30, resultado de uma realidade opressiva. Mas a verdade é que sempre estive interessada nos mundos infantil e adolescente, o que pode ser observado nos meus filmes anteriores – conta a diretora, que estudou musicologia e música Eletroacústica em paris e Londres antes de formar em cinema na Holanda, onde tem residência fixa e integra a Academia Holandesa de Filme e TV.
Ainda na Holanda, Maria Algusta dirigiu para a TV Butterflies in your stomach (1998), no qual investiga o tema da paixão entre crianças. Em cinema, fes Desi(2000), retrato de uma menina desgarrada, órfã de mãe e negligenciada pelo pai alcoólatra, que só encontra conforto na amizade de uma amiguinha brasileira. No Brasil, mas ainda para a televisão holandesa, produziu Rio, um dia em agosto (2002), um média-metragem sobre meninos que vivem pelos trilhos dos trens da Central do Brasil. Juízo amplia e aprofunda a problemática dos jovens brasileiros desassistidos pela família e pelo estado.
- É um filme sobre toda essa geração de jovens carentes dos grandes centros urbanos do país. É uma juventude apática, porque tem total consciência da falta de perspectivas. Eles sabem que são explorados, que vivem num mundo injusto e que o futuro deles é negro – resume a cineasta, que é contrária à ampliação da maioridade como estratégia para combater a criminalidade juvenil. – Punições mais pesadas a adolescentes não vão diminuir a quantidade de delitos. Nós vivemos uma luta de classes.
Juízo é resultado de três dias de filmagem na Vara da Infância e Juventude, durante os quais a diretora registrou 40 audiências, sempre do ponto de vista das costas dos réus. O passo seguinte foi escolher os casos mais significativos, sob o aspecto social e dramático – há um menino que matou o pai, duas jovens que roubaram a máquina fotográfica de um estrangeiro, o garoto que se envolveu com o tráfico de drogas. A participação dos substitutos, em close, reproduzindo as falas dos infratores, foi incluída posteriormente na edição, criando a ilusão de continuidade. Outras seqüências foram filmadas em reformatórios, como o Instituto Padre Severino.
Na Seleção dos casos, Maria Augusta também levou em consideração a interação dos réus com a juíza Luciana Fiala de Siqueira de Carvalho, que rouba as seqüências de acareação e julgamento dos menores com sua fala firme conciliadora.
-Ela tem dramaticidade, é passional representa a pátria-mãe – observa a diretora.
Os crimes e o forte caráter teatral das audiências acabam importando menos do que a descrença generalizada no processo de ressoacialização que o documentário deixa passar.
- A sensação de impotência dos juízes e magistrados é patente. Eles têm consciência de que vivem em uma sociedade totalmente partida e têm que dar conta de uma população pobre e despreparada. Pior, sabem que a possibilidade de reintegração desses menores infratores é intima.


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