10.3.2008
O Lado feminino da justiça
Rubia Mazzini - O Dia D
No documentário inédito ‘Juízo’, em que a diretora Maria Augusta Ramos expõe o tratamento dispensado pela Justiça brasileira aos menores infratores, a jovem juíza Luciana Fiala de Siqueira Carvalho monopoliza atenções. Com seu jeito duro, de quem não se comove nem com histórias cabeludas, a vaidosa loura de 36 anos e apenas 1,48m de altura é “meio sargentão”, como ela mesma se define. A frieza e a coragem para encarar bandidos só desaparecem diante de um insetinho famoso por levar mulheres à histeria.
O horror de Luciana é tão grande que ela já interrompeu uma audiência por causa da uma barata. “parei tudo, saí da sala e mandei caras do Bope matarem. Fiquei do outro lado da porta gritando ‘Matou? Matou ?’, e só voltei quando eles tinham acabado o serviço”, lembra aos risos a magistrada, revelando sua outras fobias. “Também tenho medo de fantasmas e do mar. E só”, garante, sob o olhar cúmplice do marido, o técnico judiciário Sérgio Mota.
Mãe de três filhos – uma adolescente de 14 anos, fruto do primeiro casamento, um menino de 8 e um bebê de 1 ano e meio -, Luciana conta que aceitou participar de ‘juízo’ porque era fã de ‘Justiça’, documentário anterior de Maria Augusta, e por acreditar na importância do debate que o longa pode provocar. “É uma chance de as pessoas verem a realidade nua e crua. Mas não é um filme deprê, que te deixa arrasado”, acredita ela, que na época das filmagens estava grávida e credita o nascimento prematuro do caçula, aos 6 meses, ao estresse causado pelo volume (eram 40 audiências por dia) e a sensação de impotência do trabalho com os menores. “Eu saía de lá exausta, totalmente sem energia”, conta.
)))GÍRIAS NO VOCABULÁRIO
No filme, que estréia sexta-feira no circuito carioca, também chama atenção o vocabulário recheado de gírias, como ‘pipoco’ e ‘ralou’ usadas para confrontar os réus. “Sempre falei gíria. Quando estava na Emerj ( Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro), chegava chamando as pessoas de ‘cumpadi’. Mas sei me comportar de acordo com a situação’, avisa.
Hoje à frente da vara única de Paracambi, Luciana está mais próxima do sonho que a levou à magistratura. “Lá faço tudo, mas gosto mesmo da vara criminal, adoro o submundo. Tenho prazer em mandar bandido para a cadeia”, diz ela, que defende idéia original para aumentar a eficiência do sistema punitivo brasileiro: “Por mim, acabavam os presídios. Pega todos os presos, coloca lá no centrão do Brasil, onde não tem nada cerca e, de um helicóptero, joga sementes. Quer comer? Planta. A gente aqui fora não trabalha pra comer? Preso também pode trabalhar.”
‘Não sou estrela de cinema’
Exibido no Festival do Rio de 2007, ‘Juízo’é a segunda incursão de Maria Augusta Ramos elo desgastado sistema penal brasileiro. Mas, diferentemente do premiado ‘Justiça’, aqui o documentário se mistura à ficção. É que, como pela lei, a diretora não poderia mostrar a cara dos menores infratores, ela encontrou uma saída original, que funciona à perfeição. Maria Augusta filmou as audiências posicionando a câmera atrás dos réus. Depois, selecionou jovens em comunidades carentes, com idades e tipos físicos parecidos, e treinou-os para repetir tintim por tintim as respostas dadas pelos infratores. O resultado é impressionante.
Mas é mesmo a ‘atuação’ da juíza Luciana Carvalho que vem arrancando reações entusiasmadas em quem já viu o filme, exibido no Festival do Rio do ano passado e em outros eventos do tipo. “Não esperava que fosse aparecer tanto. E não estou atuando mesmo, sou exatamente daquele jeito. Não sou, nem quero ser estrela de cinema”, observa ela.
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