28.3.2008
No banco dos réus 
Carlos Quintão - Fim de Semana – O Tempo (Belo Horizonte)

Uma tela preta avisa logo no início da projeção que a lei brasileira proíbe identificar os rostos de menores infratores e, por isso, as faces que veremos a seguir são de outros jovens que substituem os verdadeiros criminosos. Ou seja, de atores que, amadores, vivem em condições sociais similares e já possuem experiência com os rituais apresentados em “Juízo”.
Em seu novo filme, a cineasta Maria Augusta Ramos dá prosseguimento ao registro das várias facetas do poder judiciário brasileiro, iniciado com o poderoso “Justiça”(2004). A abordagem formal permanece a mesma: assistimos a audiências onde são expostos os crimes dos quais os réus são acusados e a contrapartida dos juízes que conduzem os julgamentos.
No caso de “Juízo”, o foco está no juizado de menores do Rio, mais precisamente nas audiências da 2º Vara da Justiça do Rio de Janeiro e na convivência com os jovens infratores no Instituto Padre Severino, onde são alojados durante a pena. A “personagem principal” de “Juízo” é a Juíza Luciana Fiala, de quem é função interrogar os jovens e decidir a pena. É com sua estampa de insatisfação e descrença que nós nos identificamos, como quando ela confronta um jovem que assassinou o pai a facadas enquanto este dormia: “O resto da tua vida você vai se lembrar que esfaqueou o teu pai. Se você devia efetivamente fazer isso ou não, eu vou deixar com a tua consciência. E isso, por mais que você se sinta aliviado de não ter mais alguém ter surrando, não tem como apagar”, diz ela.
O que mais impressiona no relato de “Juízo” é que a maior parte das vezes os próprios infratores, todos menores de 18 anos, não entendem o que se passa ali, a não ser quando a juíza coloca de forma familiar a eles, como quando pede para que um observe o desespero do pai que acompanha o julgamento. “Gosta de ver seu pai assim?”, questiona.
O que se percebe é o abismo existente entre os códigos e linguagens e a impossibilidade do sistema atual de dar conta da reeducação e da reinserção do jovem na sociedade. Os infratores vistos na tela podem até não ser os verdadeiros criminosos, mas, segundo “Juízo”, eles bem que poderiam estar no lugar deles também na vida real.


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