13.3.2008
Juízo faz convite à reflexão e ação 
Luiz Carlos Merten - Caderno 2 – O Estado de São Paulo

Documentário de Maria Augusta Ramos acompanha o trabalho da juíza Luciana Fiala, que julga menores infratores no Rio.
Maria Augusta Ramos fez 2 documentários seguidos – Justiça e Juízo -, mas se você pedir a ela que se defina ela não dirá que é documentarista. Maria Augusta e cineasta. Seus documentários não possuem entrevistas. O que lhe interessa é a observação, aliada ao que ela chama de ‘teatro da justiça’. Tendo feito música antes de se interessar pelo cinema, ela acha que vem daí uma das características fortes do seu trabalho – o gosto pela elaboração formal. Tudo isso, teatro, observação, se faz presente em Juízo, o documentário que Maria Augusta Ramos dedicou aos menores infratores e convida à reflexão. Para Maria Augusta, o que ela faz é humanizar a Justiça. A diretora talvez não conseguisse atingir seu objetivo se não tivesse a juíza Luciana Fiala julgando as audiências que ela filma.
O filme fala de menores, da sua condição socioeconômica. Deixa claro que a sociedade que exige juiz seus menores infratores não possui, ela própria, juízo para encarar o problema. Porque, como diz a juíza, “a chance de recuperação desses jovens e remota. Exigiria uma ação conjunta dos poderes executivo, legislativo e judiciário, além de suporte médico e psicológico”. Isso exige vontade política, sem a qual as medidas aplicadas caem no vazio. A juíza sabe disso, mas cumpre seu papel. Naquelas audiências, ela representa a própria sociedade.
Luciana Fiala parece perfeita para sustentar uma fala de Eduardo Coutinho, que disse, sobre “Jogo de Cena”, que somos todos atores, nem que seja de nós mesmos. Até onde se lembra Luciana sempre foi autoritária. No começo, queria ser médica, para cuidar do pai, um advogado que nunca exerceu a profissão, preferindo ser industrial. Este homem exigia muito da filha. Luciana aprontou bastante, mas como ela diz, sempre apresentou bons resultados. O desejo de ser médica foi substituído pelo de ser magistrada. Hoje, ela é juíza de Direito do Tribunal de Justiça do rio, atuando na comarca de Paracambi. Quando Maria Augusta fez seu filme, Luciana era juíza auxiliar da 2º vara da Criança e do Adolescente do rio.
De onde vem essa capacidade de julgar e aplicar broncas nessas crianças? Nem a juíza Luciana sabe. Mas nunca duvidou de sua capacidade de julgar. Se você lhe perguntar o que mais gosta de fazer, ela responde: “colocar bandidos na cadeira.” Foi o que ela sempre quis e para isso se preparou. Luciana freqüentou lugares que ninguém imagina. Submundo mesmo. E não chegava como ‘estrangeira’, o que produziria rejeição. Ela sempre quis se integrar para observar. Não acha que, por serem menores, deve ser branda em seus julgamentos. Mas Luciana também acha que essas crianças e adolescentes temperam sua dureza. Por mais reduzida que seja a chance de recuperação, ela existe. Menores infratores, mesmo que eventualmente sejam perigosos, não são criminosos adultos. Neles, a juíza Luciana ainda pode aplicar suas broncas.
Sua crença é a de que o contexto socioeconômico em que vivem as crianças e os adolescentes influi na ida deles para a criminalidade. Mas a juíza Luciana tem a sua máxima: “Não e porque é pobre que tem de ser bandido.” Outra crença profunda é no papel dos pais. A educação recebia dos pais é importantes. Ambiente familiar, estimulo à cobrança e à fiscalização nos estudos e no cumprimento de regras é o que falta aos menores infratores. Ela se empenha para ficar com os filhos – uma garota de 14, um menino de 8 e outro do qual estava grávida durante a realização (e que nasceu de seis meses!). Empenha-se, mas admite que não consegue ficar tanto quanto gostaria. “minha filha diz que sou chata, mas um dia ela vai compreender.” Já esta compreendendo. Na escola, a garota teve de fazer uma redação sobre alguém de sucesso. Escolheu a mãe. “E gratificante sabe que estou dando bom exemplo aos meus filhos.” Mas a mãe reflete sobre outra coisa, Preocupada em dar broncas que acha que eles talvez merecessem.
Nada do que ela diz no filme foi planejado. “Sou assim mesmo, e nem teria tempo, pois as audiências são muitas e não me permitem analisar os casos com antecedência.” O excesso de exposição pode gerar mal-entendidos, mas ela acha que não está interferindo em seu trabalho. De qualquer maneira, num debate realizado na OAB, Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo, na segunda-feira, um colega magistrado observou que a juíza está subvertendo uma das regras da função. O juiz julga e ela está abrindo espaço para que as pessoas a julguem.
Como a diretora, Maria Augusta não quer julgar ninguém – nem os menores nem seus pais e muito menos a juíza. A admiração e recíproca entre as duas. A juíza Luciana diz que o filme trata de um tema árido com leveza. Para a diretora, a filmagem de mais este capítulo do teatro da justiça trouxe problemas que seu documentário anterior não teve. Como e proibido, por lei, filmar os rostos de menores infratores, Maria Augusta valeu-se de um artifício. Ela filmou

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