28.3.2008
“Juízo” é um trabalho contundente sobre a questão do menor infrator
Paulo Henrique Silva - Hoje em dia (Belo Horizonte)
A cineasta Maria Augusta Ramos define o seu terceiro longa-metragem, “Juízo”, que entra em cartaz a partir de hoje em Belo Horizonte, como um filme híbrido, que mistura elementos do documentário e da ficção. Não é uma experiência nova, mas geralmente esses limites são bem demarcados na narrativa, saltando aos olhos do espectador. Em “Juízo”, segunda parte de uma trilogia iniciada com “Justiça”, em 2004, essas duas faces se complementam, resultando num trabalho contundente e singular sobre a questão do menor infrator no Brasil e responsabilizando toda a sociedade pelo abismo que existe hoje entre os operadores da lei e o universo destes jovens.
A entrada da ficção é um artifício criativo para vencer uma restrição da legislação brasileira, que proíbe a exposição de menores. O que Maria Augusta fez foi recortar da cena o que seria ilícito, substituindo por outros jovens que pertencem à mesma realidade social dos infratores. O que acontece durante as audiências da II Vara Regional da Infância, da Juventude e do Idoso do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, é verdadeiro, como o cenário, as histórias relatadas e os adultos presentes (juiz, promotoria, defesa e familiares). Os novos rostos entram no memento da edição, através de planos fechados filmados depois.
Cada “ator” busca reproduzir o que os infratores reais disseram, mas sem agir de forma falsa ou teatralizada. “Queríamos que eles fossem fiéis a eles mesmos, atuando o mínimo possível e reagindo aos acontecimentos de acordo com a personalidade deles. Isso amplia o foco do filme, que passa a ser não apenas sobre um grupo de meninos, para sobre toda uma geração de jovens de comunidades carentes. Os substitutos não são infratores, mas poderiam muito bem estar no lugar deles, já que todos têm uma proximidade muito grande com a violência”, observa a cineasta. Ninguém se sentirá enganado por esta troca, já que ela é explicitada nos créditos iniciais.
A discussão que será gerada por “Juízo” envolve o significado de documentário, sobre a vaidade destes recursos. Sem eles, o filme teria outro resultado, com um impacto menor ao cobrir seus rostos. As expressões são importantes para compreender o que Maria Augusta chama de “grande teatro da Justiça”. Por mais que os personagens falem, não existe entendimento de lado a lado. “O que vemos é a impossibilidade do diálogo entre os operadores da lei, que representam a classe média brasileira, e os menores, que não entendem aqueles gestos, aquele ritual da Justiça. São dois universos muito opostos e essa incompreensão é o retrato do Brasil”, registra.
Um bom exemplo dessa incomunicabilidade pode ser visto no momento em que um dos garotos afirma não saber a data de seu nascimento, algo que o promotor não entende como é possível. O menino é um ator, ou seja, não é o mesmo que foi levado para o Instituto Padre Severino (IPS) para cumprir internação provisória, mas esse detalhe acaba sendo o menos importante diante da discussão que o filme provoca. “O fundamental é ser verdadeiro, fiel àquela realidade representada. Se fosse algo falso, o público perceberia. Claro que faço escolhas, pois não é possível ser 100% documental. O que é constante é o comprometimento com a verdade”, ressalta.
Maria Augusta recorre a essa mesma explicação ao comentar um outro instante de ficção do filme, quando os atores são levados para o IPS para reproduzir o que seria o comportamento dos infratores dentro da instituição. “Nestas cenas, trabalhamos de forma improvisada sobre o que, de forma geral, os internos faziam. Ou melhor, o que não faziam, pois eles passam o dia todo sem fazer nada. O público tem consciência de que são os meninos verdadeiros, mas essa minha visão está carregada de credibilidade”, afirma. A diretora também desconstrói com o mito de que a presença da câmera, durante as audiências, altera as ações dos personagens.
“Sem a câmera, já há ali um teatro social, com cada um fazendo uma cena. A câmera pode, inicialmente, gerar uma consciência de sua presença, mas ninguém é ator ou político para se transformar totalmente. São horas e horas de audiências e não dá para ficar ‘atuando’ o tempo inteiro. O adolescente está mais preocupado com seu futuro e a juíza Luciana Fiala, que aparece na maior parte das cenas, é daquele jeito mesmo, carismática. Ela fala de um jeito teatral porque acredita que, desta forma, poderá conscientizar os garotos”, argumenta.
O documentário não conta com narração em off ou entrevistas. Muita gente diz que o estilo de Maria Augusta é objetivo, o que ela não concorda. “O que faço é um cinema mais reflexivo, no sentido de que procuro levar o público a concluir por si só. Minha visão pessoal se concretiza no formalismo”, destaca. O fato de se debruçar novamente sobre o tema da justiça tem a ver com essa opção. “Esse universo me possibilita fazer o documentário que almejo, baseado na observação. Não sinto a necessidade de fazer mais do que filmar a cena, já que as relações humanas e sociais estão ali bem repre
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