26.10.2007
Juízo e a condição do menor que é infrator
Luiz Carlos Merten - O Estado de São Paulo
Brasiliense de 43 anos- mas parecendo menos - , Maria Augusta Ramos faz um tipo de documentário diferenciado no país.
Não é que ela queira se especializar nisso, mas seu documentário anterior, Justiça, abordava o mundo das leis, aos quais ela volta em Juízo. O filme é uma produção de Diler & Associados. Os filmes de férias, os filmes infantis (Xuxa, Trapalhões, Mauricio de Sousa ) sempre foram carros chefe da produtora. Xuxa foi para a Conspiração Filmes, mas não por causa disso que Diler Trindade se associa agora a um tipo de filme autoral como o de Maria Augusta. Sua meta, ele sempre disse, era chegar a um espectro amplo de estilos e tendências, do autoral ao comercial.
Em Justiça, Maria Augusta Ramos penetrou com sua câmera no Fórum do Rio, para filmar as audiências de homens e mulheres acusados de atividades criminosas. Há um teatro da Justiça. Revela muito sobre as relações sociais, sobre as instituições. É assim em qualquer lugar do mundo - que o diga francês Gerard Depardon, de Flagrants Délits, que Maria Augusta admira, sem se sentir influenciada por ele. No novo longa, a diretora filma as audiências de menores infratores no Tribunal da Infância e Juventude do Rio.Seu filme revela uma personagem extraordinária, mas ela é real- a juíza Luciana Fiala de Siqueira Carvalho, sobre a qual vale repetir o que já disse o repórter quando o filme passou no Festival do Rio. Se não existisse, a juíza teria de ser inventada.
A legislação brasileira impede que se mostre a cara desses jovens. Maria Augusta filmou as audiências nos mínimos detalhes, mas colocou a câmera de tal maneira que isso lhe permitiu substituir os menores por atores. Tudo é exato - a juíza, os familiares, os depoimentos -, menos os menores. Isso faz com que Juízo trafegue nas bordas do documentário e da ficção. Maria Augusta não rouba o próprio filme. Diz que é cinema. Numa cena, a juíza ri – uma gargalhada gostosa – do absurdo da legislação, que cria ciladas para os acusados ( e para ela ). O tema do filme é a falta de juízo de uma sociedade que, no entanto, não pede outra coisa a seus menores infratores.
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