12.2.2008
Juízo
Jay Weissberg - Revista Variety de 08.08.2007
Depois de "Justiça", um escrutínio impiedoso do sistema penal brasileiro, a diretora Maria Augusta Ramos escolhe como tema do filme “Juízo” o Tribunal da Infância e Juventude e instituições para menores infratores. A estrutura é a mesma - uma seqüência de audiências conduzidas na presença de juiz, promotor e defensor público - num documentário que descortina sem refresco estético o arrepiante retrato de um sistema tão sobrecarregado que oferece poucas chances de seguimento aos casos que julga. Sem descambar para o sensacionalismo, “Juízo” mostra sua força graças à clareza de visão da diretora e à constatação em nenhum momento externada – mas muito palpável o tempo todo – de que cada reformatório do Rio deveria trazer sobre os portões a inscrição: "Deixai toda a esperança, ó vós que entrais!". Um filme para cinema de arte nenhum deixar escapar da sua programação.
Por conta de uma lei que proíbe a exposição da imagem dos menores, Maria Augusta Ramos se viu diante do desafio de mostrar o desenrolar dos processos sem em nenhum momento voltar suas lentes para os réus. A solução encontrada – e brilhante, diga-se – foi recrutar adolescentes da mesma faixa etária em favelas do Rio de Janeiro para interpretarem o papel dos seus pares. O recurso, que tinha muitas chances de dar errado, funciona magnificamente bem: como todas as audiências foram filmadas de frente para o tribunal, as cenas dos “atores” puderam ser inseridas em contraplano com cada um repetindo cuidadosamente, mas com toda a naturalidade, as palavras exatas ditas pelos réus, que ficaram de fora da montagem final.
Embora o processo possa soar complicado, a edição da própria diretora e de Joana Collier faz tudo parecer absolutamente natural, mantendo o rigor do formato sem desrespeitar a lei brasileira. A figura constante na tela, audiência após audiência, é a de Luciana Fiala, a juíza durona que sabe que as chances de o sistema salvar os menores que passam pela sua mesa são ínfimas, mas que ainda assim procura através do uso de ironia, tentativas de persuasão e broncas severas moldar seu interrogatório e sentenças às particularidades de cada caso.
A quantidade impressionante de audiências é ilustrada pelas tomadas mostrando pilhas e pilhas de pastas, mas nem seria preciso recorrer a elas - está claro que se trata de um sistema prestes a sucumbir sob o próprio peso. O filme mostra poucos casos: um rapaz acusado de roubar uma bicicleta; duas moças envolvidas num assalto; um garoto que era espancado regularmente pelo pai e acaba cometendo patricídio. Este último é obviamente o mais grave, mas também o único onde se vislumbra a chance de algum acompanhamento posterior mais consistente (tratamento psiquiátrico, no caso) na sentença.
Ramos não documenta apenas o purgatório dos tribunais ou o inferno dos reformatórios – amontoados de celas coletivas imundas cheias de poças de água parada e catres sem colchão – mas também a falta total de esperança. Uma das jovens, ao receber a oferta da liberdade condicional, responde que ficar na cadeia é preferível a ter que viver na favela. O trecho é inquietante, e não poderia ter sido composto de forma melhor.
Perto do final, a cena da audiência do garoto que fugiu da instituição justo no dia em que havia recebido a condicional, porque ninguém se dera ao trabalho de lhe explicar o significado do termo, resume magistralmente o horripilante absurdo da coisa toda. Até mesmo a juíza ri, sublinhando a loucura em que está imersa, antes de bradar “O próximo!” e receber outro caso e mais uma alma desenganada.
Embora a necessidade de uso do plano-contraplano roube dinamismo de algumas cenas, as personalidades dos presentes impedem que a monotonia tome conta, e os horizontes visuais do filme são ampliados quando Maria Augusta Ramos leva suas câmeras para as celas das instituições e os becos das favelas. A transferência do vídeo de alta definição para película está impecável, assim como o som.
voltar