9.8.2007
Guta Ramos é bem recebida em Locarno com seu polêmico e tocante Juízo 
Flávia Guerra - O Estado de São Paulo

Flávia Guerra, Locarno, Suíça


Maria Augusta Ramos exibiu seu Juízo, filme brasileiro em competição na sessão Cineastas do Presente, em Locarno na noite de segunda. A sessão é uma das mais prestigiadas do festival e abre espaço para o cinema que ousa sair do lugar-comum. Guta Ramos teve a felicidade de mostrar seu filme e poder explicar ao público como conseguiu realizar um documentário sem que pudesse mostrar a cara dos personagens em questão. Não foi tarefa fácil. Guta, que já havia recebido vários prêmios em festivais internacionais por Justiça, filme em que ela percorre os corredores de um tribunal, desta vez segue os caminhos da justiça ao lado de garotos que cometem delitos e vão a julgamento. Mais que a visão burocrática do processo, a diretora traz à tona as raízes deste pequenos-grandes delitos, que indicam os imensos problemas sociais que estes garotos enfrentam antes de chegar à corte. Mas, por lei, não podia mostrar o rosto desses garotos. Ao final, em vez de desistir da sua idéia, decidiu usar atores. E conseguiu realizar um documentário contundente e realista, mesmo com o uso da dramaticidade, sem cair no apelo do didático.

A tarde de ontem foi a vez de Kiko Goifman mostrar seu Handerson e as Horas na seção Ici et Alleurs. A platéia que lotava o cine L''''Altra Sala na pequena cidade dos Alpes suíços se perguntava como alguém consegue festejar o próprio aniversário num ônibus público? A dúvida: como um cidadão podia passar mais de uma hora, todos os dias, de casa para o trabalho. Na verdade são três horas. Em menos de duas horas, um habitante de Locarno chega a outro país. Enfim, diferenças geográficas e sociais à parte, o fato é que os documentários brasileiros fazem bela figura neste festival em que mais de sete mil pessoas se sentam ao ar livre na Piazza Grande para assistir aos filmes em competição.

A seleção deste ano começou há uma semana, com um filme japonês, e termina no sábado com Winners&Losers, do grande Lech Kowalski, que conta a final da Copa do Mundo de 2006 do ponto de vista de franceses e italianos. Haverá homenagens a Bergman e Antonioni, mortos recentemente, e espaço para os blockbusters. Resultado: recorde de público com 7.500 pessoas, na première mundial de Ultimato Bourne, o terceiro episódio da saga do espião vivido por Matt Damon. Damon é competente e sabe fazer bem o papel do espião contemporâneo que, em vez de superpoderes, anda de metrô e compra celular pré-pago. A organização de Locarno é competente e abre espaço para o comercial sem deixar de exibir filmes de ponta nem esquecer dos grandes mestres. A noite, por exemplo, foi encerrada com a exibição de Zabriskie Point, clássico de 1970, em homenagem a Antonioni. E o cinema prova que é arte que fala todas as línguas, em um festival onde se começa uma conversa em italiano, muda-se para o inglês e tudo pode terminar em alemão ou francês.

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