2.3.2008
Dois sucos de tomate e a conta... 
Mauro Ventura - Jornal O Globo - Revista O Globo

Na tela, a juíza Luciana Fiala de Siqueira de Carvalho aplica um sermão num menor preso assaltando: “Se a vítima está armada sabe quem vai tomar o pipoco?” Em outro momento, ironiza duas meninas que negaram ter usado faca para roubar um turista: “ Então vocês falaram: senhor gringo, me dê a máquina por gentileza?” Ela também repreende uma menor: “Você não tem idade para ser mãe.” E diz a um rapaz que matou o pai espancador: “Essa marca vai ficar em você qualquer que seja a decisão que eu vá tomar aqui.”
Luciana é o destaque do documentário “Juízo”, de Maria Augusta Ramos, que estréia dia 14 e mostra jovens infratores sendo julgados e internados no Instituto Padre Severino e no Educandário Santos Dumont. Ao vivo, no Botequim Informal, sem a beca usada nas audiências, Luciana diz: “Uso a linguagem do adolescente, utiliza várias gírias para que ele chegue perto de mim, entenda o que está acontecendo ali e me conte o que houve.“ A juíza surge para a entrevista de blusa de cetim, saia e salto alto. “Sou extremamente vaidosa. Minha avó, Mena Fiala, era modista.” Hoje juíza da vara única de Paracambi, Luciana era à época das filmagens juíza regional da capital, em exercício na Vara da Infância e Juventude.
Aos 36 anos, mãe de uma moça de 14, um menino de 8 e um bebê de 1 ano e meio, ela conta, do alto de seu 1,48m: “ Gosto daquilo que é feio, sujo, do submundo, do crime.”

...Com Luciana Fiala
Revista O Globo: Como era a sua rotina como juíza da Vara da Infância e da Juventude?
Luciana: Eu fazia cerca de 40 audiências por dia.
Meus filhos tinham muita sorte, porque eu já chegava em casa tão cansada de dar bronca que eles ganhavam uma trégua. Aquilo ali suga suas energia de maneira absurda. Era estafante e desgastante, às vezes eu chegava em casa de extremo mau humor. Eu estava grávida na época, e meu filho mais novo nasceu com seis meses. O clima é tão pesado que acho que isso contribuiu muito para eu ter essa aceleração da gravidez.

O que você aprendeu? Como foi parar lá?
Luciana: Fiquei 1 ano lá. Sou uma pessoa extremamente dura. É difícil eu ter pena de alguém, tenho mais pena dos animais, é um defeito meu. Lá, aprendi a ser mais sensível e observei que se todo mundo fizesse a sua parte estaríamos melhor. Mas falta vontade política.
Quem tem que cuidar dessas instituições (de menores) é o Poder Executivo, que não o faz. O Estado deixa muito a desejar. Mas eu não podia deixar de aplicar medidas porque a instituição não dá condições: Fui para lá porque era juíza regional, e tinha que rodar por várias comarcas. Mas não era a minha área. Os menores não são minha preferência, prefiro os bandidos maiores. (Risos).

O filme mostra você enquadrando os jovens infratores.
Disseram até que nenhuma atriz seria mais dramática.
Luciana: Eu sou exatamente o que você vê no documentário. Acham que estou representando, mas nada é ensaiado. Tenho sangue quente, meus avós eram italianos e meu pai é cearense, cangaceiro. Sou tida como uma juíza dura. Aquela ênfase toda é para o moleque se tocar, prestar atenção em mim. Tinha que dar uma sacudida neles. Nunca botei-os no colo. Era tudo o que eu podia fazer, porque no fundo o juiz ali está numa situação de extrema impotência. Eu também me sentia impotente. Fazia uma ginástica para explicar a eles como era bem melhor cumpriras medidas sócio- educativas do que fugir. Dizia para agarrarem aquela chance com unhas e dentes.
Muita gente não se recupera, mas eu tentava, o pouco que eu pudesse, chegar ao coração deles, abrir seus olhos e horizontes. Nuca ninguém me ensinou: “Quando você sentar na frente do adolescente faça assim.” Tem que ir pelo instinto.
Não há fórmula pronta. Mas acho que nasci para fazer justiça. O mais importante era não perder aqueles garotos de vez para a marginalidade. São vidas que estamos perdendo para o outro lado.

Você já foi assaltada?
Luciana: uma única vez, quando tinha 18 anos. Levaram meu carro em Copacabana. Ele estava armado, lembro da cara dele até hoje. E outro dia estava falando no celular, ia ser assaltada mas percebi e falei: “Rala moleque, rala daqui!”

A diretora se disse encantada com você, “uma pessoa excepcionalmente carismática”. Como foi fazer o filme?
Luciana: Estava receosa de aceitar. É uma exposição muito grande, a qual não estou acostumada. Meu meio é fechado e machista. Mas um amigo (o desembargador Geraldo Prado) que fez o Justiça (também da diretora) me aconselhou a participar. Só que falei com meu pai: “O trabalho da minha mãe lá em cima (ela morreu há 4 anos) vai dobrar”. Quem aparece incomoda.

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