12.3.2008
Cidadãos só na cadeira do réu. 
Ana Paula Sousa - Revista Carta Capital

A documentarista Maria Augusta Ramos tem um jeito manso de falar que destoa de contundência de suas imagens. Deve ter sido essa mansidão que tornou possível a realização de Justiça (2004). Um agudo retrato da rotina de juízes, defensores públicos e promotores de um tribunal do Rio de Janeiro, e de Juízo, que estréia nos cinemas na sexta-feira 14. Não fosse a confiança na diretora, a 2º Vara da Justiça do Rio e o Instituto Padre Severino não teriam possibilitado a construção desde raro documento sobre os menores infratores brasileiros.
Juízo nos leva às salas de audiência onde se decide o destino de garotos que na imprensa viram apenas iniciais. Os infratores, que por lei não podem ter o rosto revelado, foram filmados de costas e depois substituídos por não-atores de idade e situação social semelhante. Coube a esses jovens “dublês” repetir as frases registradas nos processos.
CartaCapital: a mistura entre ficção e documentário era um desejo como linguagem ou foi decorrência do tema?
Maria Augusta Ramos: Foi pura decorrência do tema, uma solução para humanizá-los. E é fácil encontrar em Bangu e Cidade de Deus adolescente com uma vivência semelhante à dos infratores. Esses dublês sentem que poderiam estar na sala de audiência. Eles fazem parte dessa geração consciente da miséria e da falta de perspectivas de futuro.
CartaCapital: Mas essa mistura de real e ficção incomoda, até porque todos parecem órfãos de uma porção de coisas.
Maria Augusta Ramos: Eles são órfãos de Estado, de cidadania e, quase sempre, de pai. A sociedade oferece tão pouco e pede tanto... Eles são tratados como cidadão apenas quando sentam na cadeira do réu. Que respeito a sociedade tem por ele? Eles não têm acesso a nenhum direito.
CartaCapital: Juízo nasceu como uma derivação de Justiça?
Maria Augusta Ramos: sempre me interessei pela Vara da infância, até porque, na Europa (a diretora se divide entre a Holanda e o Brasil), fiz filmes sobre crianças. No justiça, pensei sobre isso, mas nunca pensei que conseguisse filmar, que fossem abrir as portas para min.
CartaCapital: Juízes e promotores surpreenderam?
Maria Augusta Ramos: Eles trabalham num ambiente muito difícil e têm as mãos presas. O que a juíza (Luciana Fiala Carvalho) faz é uma terapia familiar muito forte. Ela fala das mães que falharam, ela é passional e fica incomodada com aquilo tudo.
CartaCapital: Como você se sentia quando terminou o filme?
Maria Augusta Ramos: Exaurida. Toda a equipe saía do Padre Severino bastante arrasada, desiludida. É difícil ver uma solução imediata. Qual a chance de a filha daquela menina de 13 anos ter um futuro diferente do da mãe? Mas a classe média, que é refém do medo, tende a ver os infratores como pessoas que não lhe dizem respeito.
CartaCapital: O que você diria as pessoas que não tem interesse em ver um filme sobre isso?
Maria Augusta Ramos: Acho que o filme vai ajudá-las a exorcizar essa realidade, mesmo que não no sentido racional. O Filme incomoda, mas te dá consciência, te ajuda a entender este País do qual a gente faz parte.


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