26.2.2008
As crianças de “Juízo”
Luiz Garcia - Jornal O Globo
Como é mesmo que andamos tratando nossas crianças?
Não as minhas nem as suas, mas as daquela multidão de pouca ou nenhuma formação ou informação, que mora conosco na mesma cidade, mas pertence a outro e triste mundo?
Podemos ter uma noção vaga do que seja a miséria quase absoluta, mas de fato não a conhecemos. Inclusive porque preferimos não conhecê-la. Não somos monstros: cada um de nós tem as suas reservas de indignação e solidariedade. E até votamos, assinamos manifestos e saímos em passeatas, de forma compatível com esses belos sentimentos.
Mas raros sabem direito como se passam as coisas do outro lado do muro. O filme mais recente de Maria Augusta Ramos ajuda - um pouco ou muito, depende de cada um – a diminuir essa ignorância.
Documentarista de carreira substancial, quem não é do ramo talvez se lembre de trabalho anterior, “ Justiça” no qual ela investiga o tratamento dado pelo judiciário brasileiro a réus sem posses, culpados ou inocentes. O mais recente, “ Juízo” , tem carreira premiada no exterior e será agora exibido por aqui. É mais uma cacetada.
Agora, Maria Augusta mostra o tratamento recebido por crianças e adolescentes nas varas da Infância e Juventude do Rio. A cineasta não saiu em caça de vilões: juízes, promotores e funcionários das instituições para menores são pessoas
bem - intencionadas, que fazem o que podem e sabem.
A crueldade visível em “Juízo” está concentrada no sistema social: nas condições que levam aos delitos e nas medidas e ações ao alcance de quem decide a respeito.
Como a lei não permite a exibição de menores envolvidos em delitos, o filme usa atores amadores do mesmo grupo social dos meninos e meninas acusados de delitos. Por exemplo, a adolescente que pede para ficar presa por não agüentar a convivência com a mãe – que mostra entender o problema e quase concorda com o pedido da filha. Ou o jovem assassino do pai que, bêbado toda noite, espancava-o todo dia.
Ficamos conhecendo também a rotina das instituições que abrigam menores infratores: não há cenas de abuso ou crueldade. Apenas um tedioso inferno, onde cada dia parece durar um ano.
O espectador fica com saudade dos carcereiros sádicos de tantos filmes de ficção. Tudo seria muito simples se a soluçai fosse expulsar do sistema meia dúzia de monstros. Sobra pouco espaço para a esperança quando não há demônios a serem exorcizados. O problema não parece estar nas pessoas ( pelo menos, não na grande maioria ), mas em condições e situações inerentes ao sistema.
“Juízo” termina com um episódio quase engraçado: o caso do adolescente que foge de uma instituição logo depois de lhe ser concedida “liberdade assistida” ( equivalente da liberdade condicional para adultos ): ele simplesmente não tinha a menor idéia de que estava sendo libertado.
Há algum humor nisso, mas o episódio acentua um dos aspectos mais tristes de todo o quadro: a dificuldade, quase impossibilidade, de dar caráter pedagógico às decisões do sistema em relação a todas aquelas crianças, todos aqueles adolescentes.
O que atrapalha tudo.
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